Por Tadeu Alencar Arrais* e Tomas Mols**

O operário tem de estar na fábrica às 5 e meia da manhã; se chega um minuto atrasado, é multado, se chega 10 minutos atrasado, não pode entrar até a hora do café da manhã, e assim perde um quarto do seu salário diário (se bem que apenas se tenha ausentado duas horas e meia em doze horas de trabalho). Come, bebe e dorme quando mandam. Só lhe concedem o tempo estritamente necessário para a satisfação das suas necessidades mais prementes. O industrial não se interessa em saber se sua casa fica a meia hora ou a uma hora da fábrica. O sino tirânico tira-o da cama, arranca-o do café da manhã e do almoço.
F. Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra.

Friedrich Engels publicou, em 1845, o livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Cada linha do livro é dedicada a conhecer e denunciar as condições de trabalho degradantes, ainda na infância do capitalismo fabril. Nas fábricas, minas, curtumes e cortiços, o suor de homens, mulheres e crianças alimentavam os banquetes dos burgueses e o luxo dos palácios aristocráticos.

Quase dois séculos se passaram desde a publicação do magistral livro de Engels. O chamado mundo do trabalho, desde então, passou por mudanças significativas. O horizonte de continuidade destas mudanças, entre o século XIX e o século XX, pode ser localizado na compreensão de dois eixos. O primeiro consiste na progressiva elevação da produtividade do trabalho e dos correlatos lucros patronais advindos da incorporação de novas técnicas, como a disposição de um exército de reserva que não tinha outra função, a não ser reduzir o custo dos salários gerais. Tal exemplo, quanto ao desemprego estrutural, ainda se aplica aos dias atuais.

O segundo eixo é aquele das lutas, por assim dizer, pela socialização dos resultados da produtividade do trabalho, o que tornou possível, de diferentes modos, que o capital socializasse os custos do trabalho com o Estado e, ao mesmo tempo, concedesse, em resposta às lutas operárias, algumas vitórias para o operariado, como o exemplo das reduções na jornada de trabalho, da aposentadoria, dos auxílios acidentários, do décimo terceiro salário etc. Nos dois eixos, seja gerando mais valor, seja reivindicando melhores condições de vida, os trabalhadores e trabalhadoras exerceram protagonismo histórico.

As diferentes tensões resultantes dos debates sobre o fim da escala 6X1, se localizados a partir desta compreensão histórica, têm o poder de explicar as continuidades da luta dos trabalhadores e trabalhadoras, afinal, o debate sobre a redução da jornada de trabalho acompanha o capitalismo desde sua gênese. A luta pelo fim da escala 6X1, interpretada por esse prisma, ganha contornos políticos diferenciados. Mas as reivindicações dos trabalhadores e trabalhadoras, nas cidades e nos campos, não se resumem apenas à exigência de redução da carga horária semanal de trabalho. A intensa precarização do trabalho no Brasil, cuja expressão mais acabada é a jornada 6X1, é a resultante da combinação de três fatores:

▪ Elevada carga horária de trabalho semanal. As jornadas acima de 40 horas semanais implicam, especialmente quando adotada a rotação dos dias de folga em detrimento dos domingos e feriados, a imprevisibilidade no já reduzido uso do tempo de descanso, sobretudo no setor varejista. À intensa jornada semanal, com folgas intermitentes e reduzidos horários para intervalos e refeições, ainda podemos incluir o banco de horas e as degradantes condições de deslocamento residência – trabalho – residência. Além disso, o gasto de tempo, quando na condição de estudante, aumenta significativamente. Como não é possível criar tempo além das 24 horas, então, a solução passa por suprimir as horas de alimentação e sono, já que as atividades regulares de lazer não estão no farol dos trabalhadores da escala 6X1.

▪ Regimes panópticos de vigilância do trabalho e insalubridade laboral. A intensidade do trabalho, indicada pela maximização do uso do tempo dos trabalhadores nos locais laborais, é ampliada com a utilização de mecanismos de vigilância, como câmeras e técnicas de gravação para identificar, por exemplo, posturas corporais não permitidas e que poderão resultar em redução dos proventos. Há empresas conhecidas pela retirada de pequenas concessões, como vale-alimentação, em função do número de atrasos e atestados. Ademais, a arquitetura dos ambientes, com mobiliário e condições climáticas inadequadas, tornam os ambientes insalubres. A ambiência laboral, no final da cansativa jornada diária, portanto, é transportada como peso pelo trabalhador no retorno ao domicílio, e a fadiga é o que define seu estado de espírito.

▪ Baixa remuneração acompanhada da adoção de regimes de metas. A remuneração dos setores de comércio e serviços no mercado de trabalho formal, mas também informal, é a mais baixa. Determinadas ocupações, como operadores de caixas, operador de telemarketing, ou balconistas, raramente ultrapassam 1,5 salário-mínimo, mesmo quando o horário de trabalho vence às noites e madrugadas. Também há uma expressiva diferença regional no mercado de trabalho, quando comparamos, por exemplo, as regiões Nordeste e Norte com as regiões Sul e Sudeste. No setor de vendas, por exemplo, a remuneração também ainda se encontra associada ao regime de metas, forma criativa de transferir a responsabilidade da produtividade da empresa para o trabalhador e a trabalhadora.

É contra este combo de precarização perverso que os trabalhadores e as trabalhadoras estão se rebelando. A rebelião, cada vez menos silenciosa, também expressa, de modo inequívoco, a preocupação com o futuro, uma vez que é um erro imaginar que os jovens precarizados não pensam no futuro. Dos 3.775 respondentes da pesquisa realizada pelo Observatório do Estado Social Brasileiro, entre dezembro de 2024 e abril de 2025, 69% responderam não reconhecer, na atual ocupação, a possibilidade de progressão financeira. Fragmentando o dado a partir das ocupações como operadores de caixa, operadores de telemarkting, estoquistas, atendentes e vendedores, que totalizaram 36,9% do total de respondentes, o percentual ultrapassa 75% dos respondentes.

O fato é que a crença na mobilidade social via trabalho está cada vez mais distante, especialmente para os jovens trabalhadores e trabalhadoras. Por um lado, assistimos à intensa exploração, com redução dos salários e ampliação dos instrumentos de vigilância e punição dos trabalhadores, e de outro, em função da Reforma Trabalhista de 2017, a expectativa de proteção do Estado tem sido, ainda mais, erodida. Porém, a encruzilhada em que nos encontramos pode ser também um ponto de escolha. Escolher atuar ao lado das trabalhadoras e trabalhadores contra a escala 6X1 ou permanecer em silêncio. Silêncio estratégico, porque é governista. Silêncio oportunista, porque é conservador. Os dois silêncios, cúmplices do neoliberalismo, cobrarão seu preço.

Para voltar a Friedrich Engels, alguém que abominava o silêncio diante do sofrimento da classe trabalhadora, devemos recordar que as greves e as mobilizações também funcionam como “escolas de guerra” para a formação dos jovens trabalhadores explorados. Não agiremos como a decadente aristocracia francesa e seus asseclas no ambiente da Comuna de Paris, ao olhar pelo telescópio “o desenrolar da batalha” (Marx, 2011, p. 178), divertindo-se, enquanto os homens e mulheres pobres de Paris tombavam. A luta está apenas começando!

Referências
Engels, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845). 2. ed. São Paulo: Global, 1985.
Marx, Karl. A guerra civil na França. São Paulo: Boitempo, 2011
Observatório do Estado Social Brasileiro. O que esconde a escala 6X1 – roubo de tempo e cotidiano dos trabalhadores precarizados. Goiânia, Editora dos Autores, 2025. In: https://obsestadosocial.com.br/documentos/o-que-esconde-a-escala-6-x-1-o-roubo-do-tempo-e-cotidiano-dos-trabalhadores-precarizados/. Acesso em 24/03/2025.

*Professor Titular da Universidade Federal de Goiás

**Discente do curso de geografia da Universidade Federal de Goiás